segunda-feira, 16 de março de 2009

"Parece que vai chover."
Depois de passear pela praça procurando um banco vazio, me sentei ao lado de um senhor que previa chuva. Não que fosse algo difícil. Já faz algumas semanas que está um calor insuportável em BH e hoje, pela primeira vez em muito tempo, o céu tornou-se cinza de nuvens.
"Está trovejando, pode ouvir?"
Nos calamos por um instante mas no meio de uma cidade, nunca há silêncio. Dentre uma profusão de sons, eu tentei encontrar o barulho de um trovão. O mais próximo disso que ouvi foi o ronco do motor de um ônibus.
"Acho que é um ônibus."
"Que ônibus barulhento."
Um instante quietos.
"Agora, ouviu?"
Eu tinha ouvido. Não me agradam muito essas tempestades elétricas que por vezes atrapalham o uso dos artefatos humanos que se utilizam de eletricidade, mas me agrada que pressagiem uma boa quantidade de água fria caindo sobre esta terra quente.
Fiquei na praça por mais uma hora, até terminar de ler meu livro. O velho ficou ali por mais um tempo, conversou com algumas pessoas que caminhavam, e ao fim se despediu dizendo que beberia água. Pouco depois, eu fui à biblioteca e troquei o livro que acabara por outro, uma coletânea de contos de ficção científica. Seja como for, o anterior me deixou com uma sensação de que a vida deveria ser experimentada e descrita. A noite começaria em breve e a cidade estava ali, à minha disposição, pedindo para ser provada mais uma vez.
Passei pela multidão de joggers ou seja lá como se chamam essas pessoas que correm em torno da praça, e deixei por um instante meus olhos deslizarem pelo peito nu de um rapaz. E apenas algumas horas antes, eu havia me mostrado tímida diante da conversa de um vendedor de rua. "Para a moça de lábios rosa, um algodão doce rosa!" Diante de um desconhecido que nunca mais se ver, não se tem história ou identidade. Não há porque manter a coerência. É um momento livre, quando se pode finalmente deixar de atuar e simplesmente ser, sem se preocupar com as repercussões futuras.
Atravessei a Brasil e contemplei o engarrafamento. Desci um quarteirão e virei na Sergipe. As pedras soltas do calçamento, uma árvore retorcida, quão rica é a paisagem urbana! Quantos detalhes! Ali onde encontra a Cristóvão Colombo, a Santa Rita Durão não é asfaltada. Santa Rita Durão, aliás, não foi uma santa. Ou melhor foi, mas foi também o modo como se referiam a um padre mineiro, o José de Santa Rita Durão. Foi um poeta, assim como Gonçalves Dias e Bernardo Guimarães.
Pode-se ouvir a algazarra de crianças do lado de fora do Santo Antônio (que, curiosamente, não fica no bairro Santo Antônio, mas no Funcionários). Mais adiante, uma galeria onde certa vez vi uma feira de vinis. Sempre passo ali em frente sem muita coragem de entrar. Dessa vez, entro e curiosamente busco alguma loja de vinil. Aparentemente, nenhuma, mas encontrei uma exposição de quadros pintados por mulheres. Preços variando de 150 à 340 reais, mas de mais de dez quadros, só um me parece interessante. Ao lado, um órgão estatal, um conselho ou algo do tipo. Há um lugar fechado por paredes de papelão, como se estivesse em reforma. Contornando-o, encontro uma porta aberta, pela qual pode-se ver uma escadaria. Não há ninguém em torno e sinto uma enorme vontade de entrar e explorar, mas sou medrosa demais para isso. Lembro-me do livro que li, e de um escritor ávido por experiências, mas covarde demais para aproveitá-las.
A praça da Savassi (que se chama Diogo de-alguma-coisa) continua tão movimentada como sempre, embora nada que se compare à multidão de adolescentes excluídos socialmente que aparece nas sextas. E apesar de ainda serem sete horas, muitas lojas já haviam se fechado. Não quis entrar na Contorno. Ali onde a avenida se torna tão larga, a passagem de uma calçada à outra é difícil, e parece um território para carros, onde humanos não deveriam entrar. (Sonho em um dia poder andar sem pensar pela cidade, seguindo sempre em frente sem olhar os lados, sem parar, sem me preocupar se algum carro poderá passar por cima de mim. Andar por andar, sem rumo, sem medo.)
Passei em frente à entrada de uma galeria na Cristóvão Colombo, mas o aspecto escuro de lugar prestes a fechar me deixou insegura. Segunda vez na noite.
Enquanto faço planos de tomar café sozinha em algum lugar, chego novamente à praça e encontro pessoas conhecidas. E em um instante, o encanto da noite desaparece. A cidade se transforma novamente em um mero amontoada disforme de pessoas e coisas, e estou cansada e com fome. Minha mochila é pesada, carrego uma pasta, e qual é o sentido de gastar dinheiro em algum lugar se posso comer em casa?
Passar pela antiga construção de uma antiga escola municipal, por um convidativo lote vazio, algumas ruas delicadamente iluminadas, e mais tantos lugares que seriam fascinantes, mas que já não me interessam mais. Talvez em outro dia...

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Só mais uma vez

Um dia desses, domingo cinzento e mau humorado, quatro paredes não eram suficientes pra mim. Havia inquietação, sufocamento e a alma pedia por ar em movimento e luz em exesso. Meus amigos estavam ocupados em seus afazeres e diversões, minha companheira de flanagem incluída nisso. Me senti só naquele momento, mesmo minha família estando espalhada por todos os cômodos daquela casa.

Saí, não aguentei a pressão, e nem deveria ter aguentado.

O que eu queria de verdade não era somente mais espaço, sair de casa. Eu qeuria flanar por algum lugar bonito. O primeiro lugar que veio à mente foi a Lagoa da Pampulha, que mesmo sendo o mais perto ainda era longe para uma caminhada. Mas as distâncias nunca me intimidaram e bastou um pé na rua para que eu não prestasse mais atenção nesse detalhe.

Com os passos, os problemas bobos que pululavam minha mente insana, as questões óbvias e as futilidades iam se dissolvendo no céu cheio de nuvens, nos pingos fininhos que caíam aqui e ali, na textura do asffalto. Tudo de ruim dava lugar à rua.

As ruas daquele bairro, esse em que moro e no qual não estou agora, são ruas feias. Há algo de destoante entre as casas e seus acabamentos, um desalinhamento de traços que as compõem. Exitem calçamentos quebrados e desarmônicos, e as favelas estão à vista, naõ muito longe. Mas apesar de tudo são ruas amigáveis, não é um desconforto psicológico passar por elas, só visual.

Para cada morro que desce existe um que sobe, Desci e subi duas vezes enquanto o céu ficava mais cinza. Haviam cruzamentos chatos de se atravessar. Ruas movimentadas me lembram burocracia.

Finalmente desaguei na lagoa e as cores e traços, linhas e padrões se tornavam mais hamônicos ali.

O trajeto que fiz na lagoa foi novo pra mim, pelo menos a pé. Haviam árvores de todo tipo, árvores que tornavam a atmosfera mais lânguida e pacífica. Passei a me sentir assim também.
No caminho havia um bando de capivaras, estavam a poucos metros de mim, quase uma escadinha: da maior para a menor. Depois havia o museu de arte da pampulha. Nunca tinha o visto de perto antes.

Minha idéia era achar um banco e me sentar. Ao invés achei uma árvore gorducha e alta, com uma copa salpicada de flores amarelas. Formigas me fizeram companhia. A terra ali embaixo estava seca e eu pude me sentar sem culpa de sujar minhas roupas. Sou um flaneur almofadinha.
Me lembrei de alguém e mandei uma mensagem por celular para contar a esse alguém. Aproveitei a chuva pingando na água da lagoa. Era uma trilha sonora agradável.

Na volta observei atentamente pela primeira vez o museu de arte da pampulha. As estátuas negras (de mármore?) são bonitas: uma mulher cá na frente, um homem lá atrás. ELe sentado, ela flutuando sem os mebros. Uma placa tem uma carta escrita por Niemeyer, ou algo do tipo. Li e retomeu meu caminho. Havia muito o que andar de volta, subir e descer duas vezes mais. Cheguei cansado, mas satisfeito.



quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Falando para si

Andando hoje pela Afonso Penna, passei por uma manifestação à favor da retirada dos israelenses da Palestina. Devia ser permitida, porque havia carros de polícia a acompanhando. Embora eu estivesse com pressa, me deixei ficar no passeio observando passarem. Na frente ia um carro de som da CUT, e um senhor magrel, negro e evangélico falava de como aquela foi a terra por onde Jesus andou e essas coisas. Não acho que deveríamos nos opôr ao que Israel faz por lá só porque é uma terra santa, mas ainda assim me parece apreciável que se tenha simpatia pelo sofrimento de povos tão distantes...

Descendo mais a avenida, outra demonstração: um grupo de pessoas fantasiadas fazem uma performance na rua para alertar sobre a ameaça que a dengue representa. Seguram um mosquito gigante e explicam como evitar a doença.

Na praça Sete, algumas mulheres sorridentes vendem alguma coisa. Para todos os lados, as pessoas são diferentes e suas roupas, sua postura, seus olhos, comunicam coisas diferentes. No centro de uma cidade tão grande e cheia, temos um redemoinho de idéias e sentimentos que se confudem e se mesclam criando o espírito da cidade. Eu vivo numa cidade que pode falar a si mesma, mesmo que não consiga sempre se ouvir.

++++

Mais tarde, vejo um taxista contar da conversa que teve com um argentino:

"Ele disse que nesse país só tem violência, é violência no Rio, é violência aqui. Que nem futebol tem mais, que futebol agora só tem na Argentina. Eu virei pra ele e disse 'Então por que é que você não vai embora?' e ele começou a dar desculpa, a falar da mulher e eu disse 'Então pára de falar essas coisas, porque vai que você fala com um mais esquentadinho, ele te quebra a cara!'"

Não sei se me diverti com a ironia ou se me orgulhei do patriotismo.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

De planos e mudanças...

Conheci uns lugares novos esses últimos dias. Ali perto da praça Raul Soares, seguindo a Augusto de Lima pro lado para o qual eu nunca vou, as coisas são um tanto quanto assustadoras à noite. Não me pareceu um bom lugar para flanagens. Uma coisa divertida que fiz também foi descobrir os outros lados do Parque Municipal. Eu só conhecida dois lados dele, nunca tinha parado para pensar no que tinha do outro lado. Nunca tinha caminhado por aquele lado da Avenida dos Andradas ou pelo lado dele mais próximo ao Hospitais. Qualquer dia desses, quero dar a volta naquele lugar. Com calma, com tempo, sem compromisso com nada além da curiosidade.

E pela milésima vez esse ano eu passei pela Prudente de Morais. Já quase sinto uma familiaridade com aquele lugar. Os mesmos comércios, a Subway, o Kyoo, o Cosmic Bowling, o Pitágoras Jardim... Um dia tenho que seguir mais adiante, até aquela lagoa ou sabe-se lá o que é aquilo.

O Buritis parece um lugar agradável para um bom passeio, mas um tanto quanto chato. Não sei o que tem lá que tudo parece absurdamente artificial. Acho que é porque as coisas não estão amontoadas que nem no centro. E não parece BH. Em um ponto de ônibus por lá, percebi que a paisagem que eu via podia estar em qualquer cidade do mundo que eu não me surpreenderia. (Ok, tem algumas diferenças na sinalização do trânsito e na linguagem que tornam bem óbvio o país, mas podia ser qualquer cidade do Brasil ainda. Tá, tá, qualquer cidade grande e moderna.)

Vou aproveitar para contar mais uma coisa. Eu às vezes sinto como se eu tivesse um "território", uma região do mundo conhecido que é minha, que eu conheço perfeitamente e dentro de cujos limites se passa a minha vida. Algumas grandes mudanças na nossa vida fazem com que freqüentemos ambientes completamente diferentes, e, por vezes, até mesmo distantes daqueles a que nos acostumamos. Eu vivi umas dessas atualmente, e ainda não me acostumei. Vou dar umas voltas e descobrir umas coisas (tem duas ruas que eu quero ver onde se cruzam) e depois posto mais à respeito. Mas, por enquanto, estava apenas dando voltas pelos lugares conhecidos, tentando fugir das alterações que minha vida vem sofrendo. Andei sozinha e sem rumo pela Savassi e acabei descobrindo uns lugares que eu nem sabia que existia em lugares por onde passo sempre. Talvez meu território não seja tão amplo quanto eu costumo imaginar.

Para os flâneurs de plantão: vocês conhecem realmente os lugares que pensam que conhecem?

domingo, 16 de novembro de 2008

Um flanar (quase) involuntário

O plano era amoçar comida caseira e tocar. Então lá estávamos nós diante da refeição nada agradável que era a caseira. "Vamos comprar refrigerante" disse Bárbara com sua carinha serelepe e seus olhinhos azuis, num bager de cílios. Me diga: quem em sã consiência resiste a tão imensurável fofura? Então tive de concordar com ela, porque afinal nós precisávamos de algo que não fosse saudável e possuísse pelo menos um nível mínimo de conservantes e óxidos nitrosos que corroessem nossos ossos.
A linda e delicada moça, colocou seus chinelinhos cor de rosa, exibindo os dedinhos pintados de salmão desbotado que se sacudiam ocasionalmente. [Tá bom, quem conhece a Bárbara sabe que ela não é esse teletubbie, mas é tão mais divertido fantasiar...]
Fomos ao banco pegar dinheiro para realizar nossa tarefa. No caminho discutimos sobre a história de uma princesa-travesti sino-japonesa. Não entrarei em detalhes pois a história dessa criatura é repleta de dor, com direito a sapatos apertados que deixam os pés pequenos e deformados.
Ao chegar no banco descobrimos que a fila do caixa eletrônico estava maior que a dívida externa brasileira. Desistimos de pegar o dinheiro. Em contrapartida surgiu a ideia de deixar de lado a refeição caseira e saudável para comermos algo no pátio savassi. Bárbara concordou plenamente coma ídeia, mas, talvez pelo fato de termos conversado sobre os pés da tal princesa-trava, ela se lembrou de seus enormes e fofos dedos tamanho família que estavam de fora em seu chinelinho rosa. Ela teve um acesso de vergonha e tivemos de voltar a sua casa para que ela pudesse trocar seus chinelos por um par de botas mexicanas. A botas eram tão mexicanas que você quase conseguia sentir aquela emoção dramática com nomes duplos vindo delas.
Com bota e tudo, lá se vamos nós prontos para devorar uma boa comida gostosa de shopping.
Eis que no sinal de pedestres, a esperar para atrvessar a rua, ocorre um atentado à higiene pessoal de nós, pobres flanantes ingênuos (a Bárbara não ingênua nem um pouco, mas vou deixar isso escrito para não descaracterizar a condição de flâneur). Do céu, cruel e doloroso, sem nenhuma piedade, um ser alado despeja sobre nós os dejetos de uma alimentação prévia.

O POMBO CAGOU NA GENTE, PORRA!

pequeno trecho da bíblia da igreja transcontinental multiangular do reino dos flâneurs:
"Como que alguém faz isso com duas pessoas prestes a se alimentar? Os pombos são criaturas vis, que nunca conseuirão entender a glória do flanar. Eles vão percer no inferno depois do dia do juízo final, porque eu ODEIO ELES, e Deus não vai deixar que eles sejam felizes porque só EU estou certo e o resto vai tudo se fuder!!!!! Dêm o dízimo aos mendigos flanantes e...."



Voltando à narrativa depois desse desabafo teológico, fomos ao pátio savassi onde, depois de nos limparmos, comemos comida japonesa e pizza. A Bárbara ficou com sua ilusão de que estava comendo comida saudável (você realmente acha que aquela algazinha não passou por uns trezentos tratamentos com conservantes cancerígenos de todo tipo, minha cara?) e eu com minha ilusão de que estava comendo uma pizza de verdade (pizzas de praça de alimentação nunca são de verdade).

Na volta passamos pelo banco pra ver que a fila agora estava do tamanho da dívida esterna de um país da áfrica central, o que é algo maior que antes, então resolvemos que pegaríamos dinheiro no caixa eletrônico da faculdade de arquitetura.

O prédio dessa faculdade é uma grande pegadinha. A fachada é linda e impressionante com revestimento de vidro e metal e uma escada recurvada. Então você passa pela escada recurvada esperando uma maravilha arquitetônica tridimensional com acabamento moderno e reluzente e com algo impressionante assinado por Oscar Niemeyer e dá de cara com um prédio normal. Sacanagem isso.

Demos uma volta até a biblioteca e depois descemos até o caixa eletrônico. Sentamos em duas poltronas e apreciamos um arranjo de fios amarelo feito entre duas pilastras do pátio exterior. Os fios eram elástico e resistentes pois um sujeito até se escorou neles, mas eles não cederam. A Bárbara quer saber de que material que é feito aquilo. Eu também. Nós vmaos ter isso em nossas casas, quando tivermos e os fios da Bárbara serão vermelhos. Eu ainda não decidi sobre os meus.

Por fim, voltamos para a casa para tocar. Mas ja era hora de ue ir embora para o meu cursinho e Bárbara pegar o ônibus para ouro preto. O ensaio acabou adiado.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Perdidas (ou Perpendicular ou São Paulo)

Ontem (em uma experiência não flanante e anterior à experiência flanante que fez com que duas pessoas quase virassem mutantes por contaminação com adubo transgênico)... Enfim, ontem, eu pretendia ir do Diamond à Savassi. É um caminho que já percorri diversas vezes, levando a típica monotonia que eu rejeito em meus momentos de flâneuse. Estava com uma amiga minha que havia passado por uma linda maratona de estudo, dança, estudo, trabalho, estudo, dança, saindo de casa para atividades não descansantes diversas vezes durante o fim de semana. (ATENÇÃO, o Ministério da Flanagem adverte: correr de um lado ao outro da cidade à serviço e sem nem tempo para respirar faz mal à saúde. Saudável é flanar despreocupadamente, com passos largos e lentos, respirando o ar [im]puro e andando por ruas aleatórias.)

Nós seguimos pelo caminho normalmente, ela me seguindo e eu seguindo meu instinto. Distraída como estava, acabei passando por um restaurante japonês aonde pretendo um dia ir e encontrando uma sorveteria muito cara mas que tinha sorvete de tiramissú. Quando eu li "tiramissú" a minha boca encheu de água, a maldita palavra me hipnotisou e eu não tive escolha se não comprar o sorvete (e eu nem gosto de sorvete). Para quem não sabe, tiramissú é um "doce" que não é muito doce, e leva café e chocolate, ou seja, como diz um amigo meu, é AMOR! Melhor coisa do mundo.

Enfim, deixando os pensamentos gulosos de lado, foi quando saí da sorveteria que eu dei de cara com um prédio muito bizarro e pensei "Se eu já tivesse visto isso, eu com certeza lembraria..." Foi nessa hora que caiu a ficha de que eu estava perdida. E foi nessa hora que o humor da minha amiga ficou péssimo (vocês tinham que ver a cara dela de quem ia me matar) e o meu melhorou abruptamente (eu estava péssima antes). É certo que se perder é péssimo, mas se perder também pode ser maravilhoso. Além da enorme sensação de liberdade, vem todo o desafio de resolver o quebra-cabeça que se apresenta.

Ela me disse para pedir ajuda à uns taxistas que estavam por perto. Eu fiz aquilo que a gente sempre reclama que homem faz: eu recusei a ajuda. Estúpida sim, admito. Virei à direita e desci por uma rua. Caí na Contorno e a reconheci imediatamente. Veio só aquela pergunta "Mas cadê a maldita Bias Fortes?" Me senti como se tivesse passado por um portal interdimensional e caído em um lugar totalmente aleatório. O que, para ser sincera, só acrescenta um pouco mais à emoção da aventura inesperada.

Andando pela Contorno, não tardei a encontrar uma rua conhecida. Porém, seguindo adiante, ao invés de mais nomes conhecidos, vieram nomes estranhos, até chegar à Prudente de Moraes. Foi aí que passei por cima do orgulho bobo e admiti que não tinha a menor idéia de onde estava. Fomos ao ponto de ônibus pegar um ônibus que nos levasse a uma altura da Contorno que conhecêssemos - apenas para descobrir que estávamos do lado errado da rua. Atravessamos. Eu me sentia cada vez mais confusa, como se a cidade tivesse sido virada ao avesso.

Esperamos um bom tempo no ponto. Eu estava empolgada. A rua estava escura, via-se uma dessas igrejas evangélicas, alguns terrenos baldios, muitos pôsters nos muros... Poucas pessoas, poucos carros. Pegamos o ônibus e descemos na Getúlio. Ali eu já sabia onde estava e já sabia onde descer, embora nunca tivesse pego aquele ônibus. Fomos para o ponto do ônibus que seria pego originalmente.

O ponto estava cheio. E já repararam como pessoas no ponto de ônibus são interessantes? O melhor nem foram as que estavam realmente ali, mas um homem, com uma bandeira britânica (ou seria americana? não me lembro mais!) que apareceu descendo a rua e gritando "Não tenho carteira de inglês e nem carteira de preto! ahahahahahaha!". Ele repetiu o comentário com várias pessoas aleatórias ao longo da rua, e eu fiquei sem entender o que ele queria dizer. Afinal, seria ele louco, ou teria alguma razão desconhecida para fazer algo assim?

Ao final, me despedi da minha amiga (que já estava exausta desde o início) e fui para casa. Passei por ruas escuras e desertas, dando voltas para evitar os caminhos que me assustavam. Parte da beleza da cidade à noite é isto: o contraste entre sua beleza e sua privacidade com seu perigo e sua violência. No último quarteirão até minha casa, me dei conta de como o meu humor melhorou durante o incidente e de como a adrenalina e o medo na rua escura e solitária me fazia sentir bem. No fim das contas, apenas vivendo com intensidade se pode libertar dos pequenos e irrelevantes problemas do dia-a-dia.

PS.: Caso eu tivesse flanado adequadamente pelo caminho, e não passado apenas cansada e com pressa, eu teria conhecido melhor o trecho, e não teria me perdido. Você pode virar 50 tipos diferentes de vinho e não conhecer nenhum; só os conhece o degustador que toma cada taça com gosto e prazer, lentamente, sentindo todo a graça da coisa.

PPS.: Eu não passei por nenhum portão interdimensional. Uma consulta ao Google Maps mostra que eu peguei a rua perpendicular a rua que deveria pegar, o que me fez desviar em 90 graus do caminho. Por mais errado que pareça.

o início de tudo

Então a brava Cavalheira e o educado Damo realoveram flanar. A paixão pela cidade, a curiosidade pelas ruas e a procrastinação das coisas importantes e essenciais foram empurrões sutis nessa direção. Eles não tentaram resistir nem um pouco a isso. No mundo nem um pouco medieval, onde as aventuras são rebocadas com cimento e os cavalos estão empacotados em centenas dentro de motores de carros, eles se lançaram ao desconhecido rumo ao nada, para alcançar o saber eterno dentro do conhecimento mundano.

1170

A questão do onde foi mínima, mas ainda existia. Uma galeria de arte supostamente distribuiria exemplares de graça de uma revista muito interessante, pelo menos nas palavras da Cavalheira. Tomando conhecimento da direção em que ficava a famigerada galeria, por parte de um website, eles se lançaram a caminho do lugar. 1170 é o número do ônibus que nossos bravos aventureiros esperaram por dez minutos que pareciam cinquenta. A velhinha ao lado ficou um pouco assustada com o assunto dos diálogos não tão convencionais que se passaram nesses minutos que se renderam.

Finalmete pegando o ônibus, o trocador parece ter notado algo realmente estranho no rosto do educado Damo, pois ficou escrutinando-o veementemente. A Cavalheira apontou que o dito cujo poderia ser apenas um sodomita em potencial.

A Prudente de Moraes é uma avenida comprida que se recurva várias vezes para a direita. Haviam algumas obras a respeito do canteiro central e foi por ali que eles descobriram a rua em que a galeria deveria estar. 

Como a galeria não havia sido informada disso previamente ela não estava ali. E era uma boa subida. Mas nunca há decepção para um flâneur, toda inutilidade é uma preciosidade única para a coleção.

Kyoo

O flanar não podia parar e logo os nossos flanadores voltaram a se embrenhar pelas curvas para a direita da avenida novamente até achar um fast-food de comida japonesa. A placa era cor-de-rosa sem ser ruim, algo que requer muito esforço ou coincidência. Mas a comida ainda podia esperar. Continuaram em frente até o shopping Jardim, um lugar que é um misterioso corredor à direita, um supermercado à esquerda e uma pracinha acima, com meia dúzia de lojas e um restaurante bonitinho. Como se pode ver, as coisas macabras estão sempre por aí, é só procurar com cuidado.

De volta ao Kyoo, o nome do lugar de comida que corre muito vinda do japão, o prato escolhido foi o temaki com o mesmo nome da loja.

"Como que eu como isso daqui?" perguntou a Cavalheira ao olhar o cone de alga recheado com peixe cru e molho agridoce que jazia à sua frente.

"Lambe" foi a resposta do garçom. Ele pareceu achar aquilo engraçado. Depois de algum tempo ainda acrescentou: "é que nem sorvete".

O curioso é que sorvete é viscoso, e não sólido. Mas quem somos eu, a Cavalheira ou o Damo para questionarmos tal afirmação, não é mesmo? As pessoas costumam ter visões de mundo muito distintas...

Cuidado!

Com a barriga da Cavalheira cheia, pois ela foi a única a comer, e a anorexia do Damo funcionando a todo vapor, eles se sentiram renovados para caminhar todo o caminho de volta até o ponto de onde começaram a flanar naquele dia. A Cavalheira, apesar de saudável, era desorientada. Logo foi o Damo a apontar as direções a serem tomadas, pelas ruas com nomes de marqueses, barões e contorno.

Eis que no meio da estrada se ergue um gigante de vidro e concreto. Ele impunha sua figura translúcida de edifício, esbanjando requintes de arquitetura moderna. Amadeus era o nome desse gigante,  ele possuía uma fonte que informava isso com letras de metal, rodeadas por uma escadinha espiral por onde corria a água.

Mas sempre atente para os perigos do que é belo. Postada a um canto, uma placa avisava aos viajantes mais incautos:

"CUIDADO

jardim tratado com produto tóxico"

Um flâneur é quase sempre um inocente (a Cavalheira é a grande excessão dessa regra) mas nunca tolo. Ambos os aventureiros seguiram a instrução, afastando-se da grama maldita e poupando suas vidas desse eminente perigo. Afinal de contas este é um blog sobre flâneurs, não sobre mutantes.

O fim da viagem se deu numa frustrada procura por carregadores de bateria. O celular da Cavalheira é um objeto único que carrega uma maldição: só funciona com um certo carregador, porém este foi perdido nos confins do tempo e selado pela magia da deterioração, em outras palavras: ela usou tanto que ele quebrou. Ainda não se achou algo que possa substituir tal objeto, mas isso não é nada além de mais um motivo para que se dê prosseguimento ao flanar.

Que venham as outras aventuras então.