Então a brava Cavalheira e o educado Damo realoveram flanar. A paixão pela cidade, a curiosidade pelas ruas e a procrastinação das coisas importantes e essenciais foram empurrões sutis nessa direção. Eles não tentaram resistir nem um pouco a isso. No mundo nem um pouco medieval, onde as aventuras são rebocadas com cimento e os cavalos estão empacotados em centenas dentro de motores de carros, eles se lançaram ao desconhecido rumo ao nada, para alcançar o saber eterno dentro do conhecimento mundano.
1170
A questão do onde foi mínima, mas ainda existia. Uma galeria de arte supostamente distribuiria exemplares de graça de uma revista muito interessante, pelo menos nas palavras da Cavalheira. Tomando conhecimento da direção em que ficava a famigerada galeria, por parte de um website, eles se lançaram a caminho do lugar. 1170 é o número do ônibus que nossos bravos aventureiros esperaram por dez minutos que pareciam cinquenta. A velhinha ao lado ficou um pouco assustada com o assunto dos diálogos não tão convencionais que se passaram nesses minutos que se renderam.
Finalmete pegando o ônibus, o trocador parece ter notado algo realmente estranho no rosto do educado Damo, pois ficou escrutinando-o veementemente. A Cavalheira apontou que o dito cujo poderia ser apenas um sodomita em potencial.
A Prudente de Moraes é uma avenida comprida que se recurva várias vezes para a direita. Haviam algumas obras a respeito do canteiro central e foi por ali que eles descobriram a rua em que a galeria deveria estar.
Como a galeria não havia sido informada disso previamente ela não estava ali. E era uma boa subida. Mas nunca há decepção para um flâneur, toda inutilidade é uma preciosidade única para a coleção.
Kyoo
O flanar não podia parar e logo os nossos flanadores voltaram a se embrenhar pelas curvas para a direita da avenida novamente até achar um fast-food de comida japonesa. A placa era cor-de-rosa sem ser ruim, algo que requer muito esforço ou coincidência. Mas a comida ainda podia esperar. Continuaram em frente até o shopping Jardim, um lugar que é um misterioso corredor à direita, um supermercado à esquerda e uma pracinha acima, com meia dúzia de lojas e um restaurante bonitinho. Como se pode ver, as coisas macabras estão sempre por aí, é só procurar com cuidado.
De volta ao Kyoo, o nome do lugar de comida que corre muito vinda do japão, o prato escolhido foi o temaki com o mesmo nome da loja.
"Como que eu como isso daqui?" perguntou a Cavalheira ao olhar o cone de alga recheado com peixe cru e molho agridoce que jazia à sua frente.
"Lambe" foi a resposta do garçom. Ele pareceu achar aquilo engraçado. Depois de algum tempo ainda acrescentou: "é que nem sorvete".
O curioso é que sorvete é viscoso, e não sólido. Mas quem somos eu, a Cavalheira ou o Damo para questionarmos tal afirmação, não é mesmo? As pessoas costumam ter visões de mundo muito distintas...
Cuidado!
Com a barriga da Cavalheira cheia, pois ela foi a única a comer, e a anorexia do Damo funcionando a todo vapor, eles se sentiram renovados para caminhar todo o caminho de volta até o ponto de onde começaram a flanar naquele dia. A Cavalheira, apesar de saudável, era desorientada. Logo foi o Damo a apontar as direções a serem tomadas, pelas ruas com nomes de marqueses, barões e contorno.
Eis que no meio da estrada se ergue um gigante de vidro e concreto. Ele impunha sua figura translúcida de edifício, esbanjando requintes de arquitetura moderna. Amadeus era o nome desse gigante, ele possuía uma fonte que informava isso com letras de metal, rodeadas por uma escadinha espiral por onde corria a água.
Mas sempre atente para os perigos do que é belo. Postada a um canto, uma placa avisava aos viajantes mais incautos:
"CUIDADO
jardim tratado com produto tóxico"
Um flâneur é quase sempre um inocente (a Cavalheira é a grande excessão dessa regra) mas nunca tolo. Ambos os aventureiros seguiram a instrução, afastando-se da grama maldita e poupando suas vidas desse eminente perigo. Afinal de contas este é um blog sobre flâneurs, não sobre mutantes.
O fim da viagem se deu numa frustrada procura por carregadores de bateria. O celular da Cavalheira é um objeto único que carrega uma maldição: só funciona com um certo carregador, porém este foi perdido nos confins do tempo e selado pela magia da deterioração, em outras palavras: ela usou tanto que ele quebrou. Ainda não se achou algo que possa substituir tal objeto, mas isso não é nada além de mais um motivo para que se dê prosseguimento ao flanar.
Que venham as outras aventuras então.
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