segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Perdidas (ou Perpendicular ou São Paulo)

Ontem (em uma experiência não flanante e anterior à experiência flanante que fez com que duas pessoas quase virassem mutantes por contaminação com adubo transgênico)... Enfim, ontem, eu pretendia ir do Diamond à Savassi. É um caminho que já percorri diversas vezes, levando a típica monotonia que eu rejeito em meus momentos de flâneuse. Estava com uma amiga minha que havia passado por uma linda maratona de estudo, dança, estudo, trabalho, estudo, dança, saindo de casa para atividades não descansantes diversas vezes durante o fim de semana. (ATENÇÃO, o Ministério da Flanagem adverte: correr de um lado ao outro da cidade à serviço e sem nem tempo para respirar faz mal à saúde. Saudável é flanar despreocupadamente, com passos largos e lentos, respirando o ar [im]puro e andando por ruas aleatórias.)

Nós seguimos pelo caminho normalmente, ela me seguindo e eu seguindo meu instinto. Distraída como estava, acabei passando por um restaurante japonês aonde pretendo um dia ir e encontrando uma sorveteria muito cara mas que tinha sorvete de tiramissú. Quando eu li "tiramissú" a minha boca encheu de água, a maldita palavra me hipnotisou e eu não tive escolha se não comprar o sorvete (e eu nem gosto de sorvete). Para quem não sabe, tiramissú é um "doce" que não é muito doce, e leva café e chocolate, ou seja, como diz um amigo meu, é AMOR! Melhor coisa do mundo.

Enfim, deixando os pensamentos gulosos de lado, foi quando saí da sorveteria que eu dei de cara com um prédio muito bizarro e pensei "Se eu já tivesse visto isso, eu com certeza lembraria..." Foi nessa hora que caiu a ficha de que eu estava perdida. E foi nessa hora que o humor da minha amiga ficou péssimo (vocês tinham que ver a cara dela de quem ia me matar) e o meu melhorou abruptamente (eu estava péssima antes). É certo que se perder é péssimo, mas se perder também pode ser maravilhoso. Além da enorme sensação de liberdade, vem todo o desafio de resolver o quebra-cabeça que se apresenta.

Ela me disse para pedir ajuda à uns taxistas que estavam por perto. Eu fiz aquilo que a gente sempre reclama que homem faz: eu recusei a ajuda. Estúpida sim, admito. Virei à direita e desci por uma rua. Caí na Contorno e a reconheci imediatamente. Veio só aquela pergunta "Mas cadê a maldita Bias Fortes?" Me senti como se tivesse passado por um portal interdimensional e caído em um lugar totalmente aleatório. O que, para ser sincera, só acrescenta um pouco mais à emoção da aventura inesperada.

Andando pela Contorno, não tardei a encontrar uma rua conhecida. Porém, seguindo adiante, ao invés de mais nomes conhecidos, vieram nomes estranhos, até chegar à Prudente de Moraes. Foi aí que passei por cima do orgulho bobo e admiti que não tinha a menor idéia de onde estava. Fomos ao ponto de ônibus pegar um ônibus que nos levasse a uma altura da Contorno que conhecêssemos - apenas para descobrir que estávamos do lado errado da rua. Atravessamos. Eu me sentia cada vez mais confusa, como se a cidade tivesse sido virada ao avesso.

Esperamos um bom tempo no ponto. Eu estava empolgada. A rua estava escura, via-se uma dessas igrejas evangélicas, alguns terrenos baldios, muitos pôsters nos muros... Poucas pessoas, poucos carros. Pegamos o ônibus e descemos na Getúlio. Ali eu já sabia onde estava e já sabia onde descer, embora nunca tivesse pego aquele ônibus. Fomos para o ponto do ônibus que seria pego originalmente.

O ponto estava cheio. E já repararam como pessoas no ponto de ônibus são interessantes? O melhor nem foram as que estavam realmente ali, mas um homem, com uma bandeira britânica (ou seria americana? não me lembro mais!) que apareceu descendo a rua e gritando "Não tenho carteira de inglês e nem carteira de preto! ahahahahahaha!". Ele repetiu o comentário com várias pessoas aleatórias ao longo da rua, e eu fiquei sem entender o que ele queria dizer. Afinal, seria ele louco, ou teria alguma razão desconhecida para fazer algo assim?

Ao final, me despedi da minha amiga (que já estava exausta desde o início) e fui para casa. Passei por ruas escuras e desertas, dando voltas para evitar os caminhos que me assustavam. Parte da beleza da cidade à noite é isto: o contraste entre sua beleza e sua privacidade com seu perigo e sua violência. No último quarteirão até minha casa, me dei conta de como o meu humor melhorou durante o incidente e de como a adrenalina e o medo na rua escura e solitária me fazia sentir bem. No fim das contas, apenas vivendo com intensidade se pode libertar dos pequenos e irrelevantes problemas do dia-a-dia.

PS.: Caso eu tivesse flanado adequadamente pelo caminho, e não passado apenas cansada e com pressa, eu teria conhecido melhor o trecho, e não teria me perdido. Você pode virar 50 tipos diferentes de vinho e não conhecer nenhum; só os conhece o degustador que toma cada taça com gosto e prazer, lentamente, sentindo todo a graça da coisa.

PPS.: Eu não passei por nenhum portão interdimensional. Uma consulta ao Google Maps mostra que eu peguei a rua perpendicular a rua que deveria pegar, o que me fez desviar em 90 graus do caminho. Por mais errado que pareça.

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