segunda-feira, 16 de março de 2009

"Parece que vai chover."
Depois de passear pela praça procurando um banco vazio, me sentei ao lado de um senhor que previa chuva. Não que fosse algo difícil. Já faz algumas semanas que está um calor insuportável em BH e hoje, pela primeira vez em muito tempo, o céu tornou-se cinza de nuvens.
"Está trovejando, pode ouvir?"
Nos calamos por um instante mas no meio de uma cidade, nunca há silêncio. Dentre uma profusão de sons, eu tentei encontrar o barulho de um trovão. O mais próximo disso que ouvi foi o ronco do motor de um ônibus.
"Acho que é um ônibus."
"Que ônibus barulhento."
Um instante quietos.
"Agora, ouviu?"
Eu tinha ouvido. Não me agradam muito essas tempestades elétricas que por vezes atrapalham o uso dos artefatos humanos que se utilizam de eletricidade, mas me agrada que pressagiem uma boa quantidade de água fria caindo sobre esta terra quente.
Fiquei na praça por mais uma hora, até terminar de ler meu livro. O velho ficou ali por mais um tempo, conversou com algumas pessoas que caminhavam, e ao fim se despediu dizendo que beberia água. Pouco depois, eu fui à biblioteca e troquei o livro que acabara por outro, uma coletânea de contos de ficção científica. Seja como for, o anterior me deixou com uma sensação de que a vida deveria ser experimentada e descrita. A noite começaria em breve e a cidade estava ali, à minha disposição, pedindo para ser provada mais uma vez.
Passei pela multidão de joggers ou seja lá como se chamam essas pessoas que correm em torno da praça, e deixei por um instante meus olhos deslizarem pelo peito nu de um rapaz. E apenas algumas horas antes, eu havia me mostrado tímida diante da conversa de um vendedor de rua. "Para a moça de lábios rosa, um algodão doce rosa!" Diante de um desconhecido que nunca mais se ver, não se tem história ou identidade. Não há porque manter a coerência. É um momento livre, quando se pode finalmente deixar de atuar e simplesmente ser, sem se preocupar com as repercussões futuras.
Atravessei a Brasil e contemplei o engarrafamento. Desci um quarteirão e virei na Sergipe. As pedras soltas do calçamento, uma árvore retorcida, quão rica é a paisagem urbana! Quantos detalhes! Ali onde encontra a Cristóvão Colombo, a Santa Rita Durão não é asfaltada. Santa Rita Durão, aliás, não foi uma santa. Ou melhor foi, mas foi também o modo como se referiam a um padre mineiro, o José de Santa Rita Durão. Foi um poeta, assim como Gonçalves Dias e Bernardo Guimarães.
Pode-se ouvir a algazarra de crianças do lado de fora do Santo Antônio (que, curiosamente, não fica no bairro Santo Antônio, mas no Funcionários). Mais adiante, uma galeria onde certa vez vi uma feira de vinis. Sempre passo ali em frente sem muita coragem de entrar. Dessa vez, entro e curiosamente busco alguma loja de vinil. Aparentemente, nenhuma, mas encontrei uma exposição de quadros pintados por mulheres. Preços variando de 150 à 340 reais, mas de mais de dez quadros, só um me parece interessante. Ao lado, um órgão estatal, um conselho ou algo do tipo. Há um lugar fechado por paredes de papelão, como se estivesse em reforma. Contornando-o, encontro uma porta aberta, pela qual pode-se ver uma escadaria. Não há ninguém em torno e sinto uma enorme vontade de entrar e explorar, mas sou medrosa demais para isso. Lembro-me do livro que li, e de um escritor ávido por experiências, mas covarde demais para aproveitá-las.
A praça da Savassi (que se chama Diogo de-alguma-coisa) continua tão movimentada como sempre, embora nada que se compare à multidão de adolescentes excluídos socialmente que aparece nas sextas. E apesar de ainda serem sete horas, muitas lojas já haviam se fechado. Não quis entrar na Contorno. Ali onde a avenida se torna tão larga, a passagem de uma calçada à outra é difícil, e parece um território para carros, onde humanos não deveriam entrar. (Sonho em um dia poder andar sem pensar pela cidade, seguindo sempre em frente sem olhar os lados, sem parar, sem me preocupar se algum carro poderá passar por cima de mim. Andar por andar, sem rumo, sem medo.)
Passei em frente à entrada de uma galeria na Cristóvão Colombo, mas o aspecto escuro de lugar prestes a fechar me deixou insegura. Segunda vez na noite.
Enquanto faço planos de tomar café sozinha em algum lugar, chego novamente à praça e encontro pessoas conhecidas. E em um instante, o encanto da noite desaparece. A cidade se transforma novamente em um mero amontoada disforme de pessoas e coisas, e estou cansada e com fome. Minha mochila é pesada, carrego uma pasta, e qual é o sentido de gastar dinheiro em algum lugar se posso comer em casa?
Passar pela antiga construção de uma antiga escola municipal, por um convidativo lote vazio, algumas ruas delicadamente iluminadas, e mais tantos lugares que seriam fascinantes, mas que já não me interessam mais. Talvez em outro dia...

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Só mais uma vez

Um dia desses, domingo cinzento e mau humorado, quatro paredes não eram suficientes pra mim. Havia inquietação, sufocamento e a alma pedia por ar em movimento e luz em exesso. Meus amigos estavam ocupados em seus afazeres e diversões, minha companheira de flanagem incluída nisso. Me senti só naquele momento, mesmo minha família estando espalhada por todos os cômodos daquela casa.

Saí, não aguentei a pressão, e nem deveria ter aguentado.

O que eu queria de verdade não era somente mais espaço, sair de casa. Eu qeuria flanar por algum lugar bonito. O primeiro lugar que veio à mente foi a Lagoa da Pampulha, que mesmo sendo o mais perto ainda era longe para uma caminhada. Mas as distâncias nunca me intimidaram e bastou um pé na rua para que eu não prestasse mais atenção nesse detalhe.

Com os passos, os problemas bobos que pululavam minha mente insana, as questões óbvias e as futilidades iam se dissolvendo no céu cheio de nuvens, nos pingos fininhos que caíam aqui e ali, na textura do asffalto. Tudo de ruim dava lugar à rua.

As ruas daquele bairro, esse em que moro e no qual não estou agora, são ruas feias. Há algo de destoante entre as casas e seus acabamentos, um desalinhamento de traços que as compõem. Exitem calçamentos quebrados e desarmônicos, e as favelas estão à vista, naõ muito longe. Mas apesar de tudo são ruas amigáveis, não é um desconforto psicológico passar por elas, só visual.

Para cada morro que desce existe um que sobe, Desci e subi duas vezes enquanto o céu ficava mais cinza. Haviam cruzamentos chatos de se atravessar. Ruas movimentadas me lembram burocracia.

Finalmente desaguei na lagoa e as cores e traços, linhas e padrões se tornavam mais hamônicos ali.

O trajeto que fiz na lagoa foi novo pra mim, pelo menos a pé. Haviam árvores de todo tipo, árvores que tornavam a atmosfera mais lânguida e pacífica. Passei a me sentir assim também.
No caminho havia um bando de capivaras, estavam a poucos metros de mim, quase uma escadinha: da maior para a menor. Depois havia o museu de arte da pampulha. Nunca tinha o visto de perto antes.

Minha idéia era achar um banco e me sentar. Ao invés achei uma árvore gorducha e alta, com uma copa salpicada de flores amarelas. Formigas me fizeram companhia. A terra ali embaixo estava seca e eu pude me sentar sem culpa de sujar minhas roupas. Sou um flaneur almofadinha.
Me lembrei de alguém e mandei uma mensagem por celular para contar a esse alguém. Aproveitei a chuva pingando na água da lagoa. Era uma trilha sonora agradável.

Na volta observei atentamente pela primeira vez o museu de arte da pampulha. As estátuas negras (de mármore?) são bonitas: uma mulher cá na frente, um homem lá atrás. ELe sentado, ela flutuando sem os mebros. Uma placa tem uma carta escrita por Niemeyer, ou algo do tipo. Li e retomeu meu caminho. Havia muito o que andar de volta, subir e descer duas vezes mais. Cheguei cansado, mas satisfeito.



quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Falando para si

Andando hoje pela Afonso Penna, passei por uma manifestação à favor da retirada dos israelenses da Palestina. Devia ser permitida, porque havia carros de polícia a acompanhando. Embora eu estivesse com pressa, me deixei ficar no passeio observando passarem. Na frente ia um carro de som da CUT, e um senhor magrel, negro e evangélico falava de como aquela foi a terra por onde Jesus andou e essas coisas. Não acho que deveríamos nos opôr ao que Israel faz por lá só porque é uma terra santa, mas ainda assim me parece apreciável que se tenha simpatia pelo sofrimento de povos tão distantes...

Descendo mais a avenida, outra demonstração: um grupo de pessoas fantasiadas fazem uma performance na rua para alertar sobre a ameaça que a dengue representa. Seguram um mosquito gigante e explicam como evitar a doença.

Na praça Sete, algumas mulheres sorridentes vendem alguma coisa. Para todos os lados, as pessoas são diferentes e suas roupas, sua postura, seus olhos, comunicam coisas diferentes. No centro de uma cidade tão grande e cheia, temos um redemoinho de idéias e sentimentos que se confudem e se mesclam criando o espírito da cidade. Eu vivo numa cidade que pode falar a si mesma, mesmo que não consiga sempre se ouvir.

++++

Mais tarde, vejo um taxista contar da conversa que teve com um argentino:

"Ele disse que nesse país só tem violência, é violência no Rio, é violência aqui. Que nem futebol tem mais, que futebol agora só tem na Argentina. Eu virei pra ele e disse 'Então por que é que você não vai embora?' e ele começou a dar desculpa, a falar da mulher e eu disse 'Então pára de falar essas coisas, porque vai que você fala com um mais esquentadinho, ele te quebra a cara!'"

Não sei se me diverti com a ironia ou se me orgulhei do patriotismo.